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Meu Reino Encantado / Saudade da Minha Terra (pot-pourri)
Daniel



Eu nasci num recanto feliz Bem distante da povoação Foi ali que eu vivi muitos anos Com papai mamãe e os irmãos Nossa casa era uma casa grande Na encosta de um espigão Um cercado pra apartar bezerro E ao lado um grande mangueirão No quintal tinha um forno de lenha E um pomar onde as aves cantava Um coberto pra guardar o pilão E as traias que papai usava De manhã eu ia no paiol Um espiga de milho eu pegava Debulhava e jogava no chão Num instante as galinhas juntava Nosso carro de boi conservado Quatro juntas de bois de primeira Quatro cangas, dezesseis canseis Encostados no pé da figueira Todo sábado eu ia na vila Fazer compras para semana inteira O papai ia gritando com os bois Eu na frente ia abrindo as porteiras Nosso sítio que era pequeno Pelas grandes fazendas cercado Precisamos vender a propriedade Para um grande criador de gado E partimos pra a cidade grande A saudade partiu ao meu lado A lavoura virou colonião E acabou-se meu reino encantado Hoje ali só existem três coisas Que o tempo ainda não deu fim A tapera velha desabada E a figueira acenando pra mim E por ultimo marcou saudade De um tempo bom que já se foi Esquecido em baixo da figueira Nosso velho carro de boi De que me adianta viver na cidade Se a felicidade não me acompanhar Adeus, paulistinha do meu coração Lá pro meu sertão eu quero voltar Ver a madrugada, quando a passarada Fazendo alvorada começa a cantar Com satisfação arreio o burrão Cortando o estradão saio a galopar E vou escutando o gado berrando Sabiá cantando no jequitibá Por nossa senhora, meu sertão querido Vivo arrependido por ter te deixado Esta nova vida aqui na cidade De tanta saudade, eu tenho chorado Aqui tem alguém, diz que me quer bem Mas não me convém, eu tenho pensado Eu digo com pena, mas essa morena Não sabe o sistema que eu fui criado Tô aqui cantando de longe escutando Alguém está chorando com o rádio ligado Que saudade imensa do campo e do mato Do manso regato que corta as campinas Aos domingos ia passear de canoa Nas lindas lagoas de águas cristalinas Que doce lembrança daquelas festanças Onde tinham danças e lindas meninas Eu vivo hoje em dia sem ter alegria O mundo judia, mas também ensina Estou contrariado, mas não derrotado Eu sou bem guiado pelas mãos divinas Pra minha mãezinha já telegrafei E já me cansei de tanto sofrer Nesta madrugada estarei de partida Pra terra querida, que me viu nascer Já ouço sonhando o galo cantando O inhambu piando no escurecer A lua prateada clareando a estrada A relva molhada desde o anoitecer Eu preciso ir pra ver tudo alí Foi lá que nasci, lá quero morrer